quarta-feira, 23 de março de 2011

Afinidades

Primeiro ato:

Pediu que entrasse, entrei. Dedilhou canções que ecoaram dentro, fizeram sintonia nas cortinas amassadas daquela casa mal esquecida, aproximaram-se. Sentiram-se próximos um do outro como se já fizessem trocas há muito tempo, traziam de outra vida. Sensações mal escolhidas ficaram claras desde aquele instante. Um, uma pessoa antiga, o outro conhecedor daquela pessoa antiga. E todo aquele passado, aquilo mal resolvido de que um dia já tiveram algo em comum, estaria junto até que transcendessem aquela etapa da vida.
   Sou simpatizante dos gatos escuros, me trazem um tom de infinito, de profundo, de mim mesma. Não tinham os mesmos gostos, pequenos níveis materiais, mas a leitura da alma faziam diariamente. Sou conhecedor do mistério da alma dos homens, deslizo entre as consciências e isso apenas me satisfaz.
   Enquanto ela mostrava, não apenas seu corpo, mas todos seus órgãos internos para ele, ele lhe dizia que tinham que ser mais, ser além. Deixar que suas almas sobrevoassem o planeta em uma projeção astral, talvez, e alcançassem a felicidade. Posso lhe mostrar como aprendi o amor, posso tocá-lo por dentro. Ele lhe tocava por fora, e acendia uma luz com todo o seu saber sobre ela.
   No outro dia, e depois no outro, foram àquela cachoeira, sentir o quanto a natureza fazia parte deles, e como aquela água se fazia em forma de mulher. Ele, sem dizer nada, procurava naquela água o cheiro da feminilidade, as formas côncavas. Um mal estar, sabia ela que não eram apenas duas almas, dois seres que se entendiam e se entrelaçavam, ele era homem.
  Aqui vai ser a nossa casa, os móveis serão peças antigas encontradas em becos ainda não percebidos , dormiremos no chão, as gotas que limparão o chão serão do meu corpo. Aqui faremos a nossa poesia, viveremos de amor, ah sim o tão esperado amor. Amor que não tivemos daqueles que nos acompanharam no mundo, amor que criaremos, inventaremos, agora.
   Nasceu um outro ser da convivência diária, os hábitos ainda úmidos, heranças dos pais. Logo, os desgastes se mostraram contentes pelo descontentamento. E depois, com o perceber da vida lá fora, o buraco negro em cada um, ficaram descontentes pelo contentamento, acomodados. O sol fazia um desenho escuro na grande janela, única daquele único cômodo. Era ,agora, outono. Roupas de grande abraço, coloridas, penduraram-se em cabides pela sala, presos em ferros amparados somente por uma parede branca. Era muito bom acordar todos os dias e olhar os traços bem feitos daquele rosto quase triangular. Era assim que se sentia quando o olhava. Ele ao contrário, só desejava bom dia as grandes almofadas amarelas do chão da sala, depois das três da tarde. Era tarde, e já estavam sós.
  O pequeno espaço entre os móveis servia para apresentação de uma peça em cartaz, peça em comum. Jamais sentimos isto antes, somos tão um do outro, que estamos cansados. Todas as nossas angústias são agora comuns, sentimos juntos. Se fazia angustiada para agradá-lo, descobriu que assim sabia ser profunda, ele dizia só gostar do que havia por debaixo de tudo, ele era quase um ser com luz própria. Ela aprendiz, mas sabia que era ela quem ensinaria tudo para ele.
  Sou tão inconstante que não canso de ser uma a cada dia, hoje sou o que você quer, depois serei a outra, aquela que irá te arrancar os olhos. Não tinham família, a vida era do próprio sustento, ela reinventava uma arte que captava no ambiente para fazer o seu salário máximo. Ele , tranqüilo, esperava a hora em que ela iria entrar pela porta, e correndo pegar o pão, e enfiar inteiro entre os dentes. O que eu mais gosto em nós é a noite, sinto que me cuida, ela sentiu, sinto que você se dobra, ele quis.
 Já não podia ver seus pais, afinal nem sabia da verdadeira existência deles, ela sentia uma falta. Ele reconstruía um retrato da família, e limpava com pano seco todos os dias. Não gosto da sua casa, do jeito que me olham, que olham para nós. Prefiro a segurança das nossas quatro paredes, cuidarei de você até o fim. Ela acreditou nele, entregou os objetos da caixinha que ficava em cima do guarda-roupa, os livros, os assuntos, o frio, o calor, tudo . Ele retirou com as unhas entre os lábios ,uma oração, serei seu único.
 Sonharam com uma noite em que os corpos não se comunicassem mais, mantiveram-se deitados, um ao lado do outro, e sentiram que queriam sair pela porta estreita, de mãos dadas.  


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