segunda-feira, 21 de março de 2011

Nossa condição,


 Sinto que é por meio deste, e vômito de dentro, que senti necessidade de manifestar a minha cólera e a minha angústia de vida nesta sociedade. Acreditava, até ontem,a possibilidade do amor entre dois seres, especificamente homem e mulher, a tal da relação padrão na sociedade, heteronormalidade.
  Com o tempo você descobre que o bolo que fez ontem para seu marido é tão significante quanto as mulheres com as quais ele idealiza um momento sexual, quanto os órgão genitais, que ele toca, de todas as mulheres com o cheiro da fêmea aguçada e reprimida que um dia ele sonhou em comer. Descobre ainda, que não adianta a sua liberdade diante da vida, ao amor, a compreensão do sexo como parte de um todo que flui de dois seres. Para o homem, o seu corpo perfumado e tão escolhido para ser dele, na sua concepção, não é mais do que uma linda anca que irá dar muito prazer, na concepção dele.
 Talvez o grande conflito esteja no modo como fomos educados, os conceitos enraizados, a rede do pensamento. Estamos presos a achar que temos de ter um parceiro ideal, e muitas vezes passamos a vida esperando por isso. Quer dizer, acredito, que a maioria das pessoas, aqui nesta nossa cultura, esperam por isso, buscam isso, fazem a vida valer por conta disso. Se não fosse assim, não teríamos tantas músicas estorando na cultura de massa que têm como única proposta o tema do amor, da paixão, dos corpos.
 Acontece que o que não explicam para agente, ou talvez não deixem que esta informação flutue livre entre nós é que os homens e as mulheres não sentem este tal do “amor” da mesma maneira, ou se alguma vez sentiram, é por muita afinidade existencial, coisas das quais não se sabem os porquês e não fazem parte do “todo dia”.
  Para a mulher, o homem que ela deseja é um príncipe encantado, o parceiro ideal, companheiro, que cuide dela e esteja atento as mudanças que ela entende diariamente. O homem deseja uma mulher que supra suas necessidades sexuais, seu fogo interno, e que seja uma boa mãe, atenciosa, e cure suas dependências. Acreditar que é possível um amor livre e ideal entre estes dois seres? Possível?
 Quando dispostos para sentirem os corpos, o homem faz questão, pela própria natureza de separar totalmente este “amor” do ato sexual, para ele a mulher que cuida dele, a segunda mãe, é tão especial, mas é melhor ainda quando se deita para ele e faz um bom sexo. Enquanto a mulher envolve-se toda com seu emocional, talvez todas as mulheres sintam isso. Ele me ama? Estou bonita? Estou atraente? Sou única? Como ele me vê...
  Aprender a aceitar e ver de um outro ângulo do poliedro, ou passar a existência aqui nesta vida a sentir-se insatisfeita, até que apareça o ator do filme, no final do filme, e  faça o papel de que o “parceiro ideal” é possível sim de existir, depois de muita luta.
 Já não sei qual o verdadeiro valor nisso tudo, o ser humano inventou um dia que teríamos de utilizar panos para nos cobrirmos, as roupas, que hoje são um grande mercado e tema para muito assunto. Um dia elas serviram para nos protegermos contra choques mecânicos e das temperaturas do planeta. Hoje além de tudo isso, são também motivo para escondermos nosso corpo,e criarmos um conceito de proibição e repressão pelo corpo escondido. O pênis ou a vagina que não podem ser vistos pelas ruas andando, e indo fazer compras na padaria, é motivo para jogo sexual de atrações e desejos proibidos quando escondidos por debaixo das roupas. Assim as mulheres utilizam de um acessório chamado “decote” , um outro chamado “calcinha enfiada”, roupas curtas, e tudo para se tornarem atraentes, na luta existencial pelo seu macho e para ganharem frente as outras fêmeas. Se fossem todos tão tranqüilos quanto ao corpo, não veriam mal em andarem nus quando bem sentirem que querem mostrar o que possuem. Se eu quero mostrar a minha vagina para ele, eu mostro logo, oras.
   Então criaram entre as multimídias, a indústria do sexo, a pornografia, para aqueles insatisfeitos com a coisa, ou mal resolvidos. Belas mulheres nuas e proibidas ,para as esposas, oferecendo através de imagens um pouco do sexo daquele que você não tem em casa. Fingindo orgasmos tão mal fingidos, e se dobrando e gemendo diante dos poderosos homens com seus grandes pênis vencedores. Os homens ejaculam e todo o prazer da cena acaba, e que venha a próxima gostosa da fila. Realmente não entendem nada do corpo das mulheres, da relação do prazer para elas.  Não consigo entender o que levam estas mulheres a quererem fazer parte de todo este jogo. Acharem-se lindas, e tão enganadas pela indústria do padrão de beleza,  a ponto de quererem fazer do corpo algo de contemplação para outros? Se elas mesmas vivem insatisfeitas por não acharem um parceiro ideal que as compreenda, e vivem em busca disso. O tal do caos.
  Ainda me vem um verso de uma música recente, da cantora brasileira Maria Gadú “ Homem feliz, mulher carente. A linda rosa perdeu pro cravo...”. E é assim.
  Há muitas teorias, devem se lembrar de alguma, que apresentam este comportamento do ser humano a partir da visão biológica. É do corpo, é do homem, é dos hormônios, é da mulher. Mas vai muito mais além disso, toda essa nossa genética desencadeia sintomas na nossa mente, na nossa atuação diária. Vivemos insatisfeitos por buscarmos a satisfação no outro, por acreditarmos que nossa felicidade está relacionada ao encontro da pessoa amada. E a tal da pessoa amada, não nos ama por inteiro, metade é para nós e outra para a satisfação sexual.
  Talvez todas estas questões façam parte do grande questionamento existencial, o porquê disso tudo, o porquê de estarmos neste mundo, para onde vamos. Porém se começarmos a questionar situações doentias na nossa sociedade, como essa, e passarmos a não querer mais contribuir para isto,  querer ser livres, de toda esta rede de pensamento, todo esse sofrimento, talvez, conseguiríamos amar mais, com mais amor, a tudo e a todos. Sem achar que devo guardar o meu amor, e que,  a minha felicidade está relacionada a um certo “companheiro ideal” e acreditar que eu devo encontrar ele e ele deve me completar. Poderiamos somar mais, utilizar a palavra amor de uma forma mais bonita. Isso é realmente difícil.
Um dia ela me contou o que escreveu...
Rayssa.

Um comentário:

  1. You may say
    I'm a dreamer
    But I'm not the only one
    I hope some day
    You'll join us
    And the world will be as one

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