sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A insustentável leveza...


Este capítulo é muito belo:

"Foi essa força dos acasos (o livro, Beethoven, o número seis, o banco amarelo da praça) mais do que esse cartão de visitas que ele lhe entregou no último momento que deu a Tereza a coragem de sair de casa e mudar de vida. Talvez tenham sido esses pequenos acasos (por sinal bem modestos e banais, dignos dessa pequena cidade insignificante) que acionaram seu amor, e que... se transformaram na fonte de energia onde ela se abasteceu até o fim.

Nossa vida quotidiana é bombardeada de acasos, mais exatamente encontros fortuitos entre as pessoas e os acontecimentos aquilo que chamamos de coincidências. Existe coincidência quando dois acontecimentos inesperados acontecem ao mesmo tempo, quando eles se encontram:

Tomas aparece no restaurante no momento em que o rádio toca Beethoven. Na sua imensa maioria, essas coincidências passam completamente despercebidas. Se o açougueiro da esquina tivesse vindo sentar à mesa do restaurante em vez de Tomas, Tereza não teria notado que o rádio tocava Beethoven. (Se bem que o encontro de Beethoven com um açougueiro seja também uma curiosa coincidência.) Mas o amor nascente aguçou nela a percepção da beleza, e ela jamais esquecerá essa música. Toda vez que a ouvir, tudo que acontecer em torno dela, nesse momento, ficará impregna do com seu brilho.

No princípio do pesado livro que Tereza carregava embaixo do braço no dia em que viera para a casa de Tomas, Ana encontra Vronsky em circunstâncias estranhas. Estão na plataforma de uma estação e alguém acabara de cair sob o trem. No fim do romance, é Ana que se atira sob um trem. Essa composição simétrica, onde o mesmo tema aparece no começo e no fim, pode parecer até romântica. Admito que seja, mas somente com a condição de que romântico não signifique para você uma coisa inventada, artificial , sem semelhança com a vida. Porque é assim mesmo que é composta a vida humana.

Ela é composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito (uma música de Beethoven, a morte numa estação) para fazer disso um tema que, em seguida, fará parte da partitura de sua vida. Voltará ao tema, repetindo o, modificando-o, desenvolvendo-o e transpondo-o, como faz um compositor com os temas de sua sonata. Ana poderia ter posto fim a seus dias de outra maneira. Mas o tema da estação e da morte, esse tema inesquecível associado ao nascimento do amor, atraiu-a no momento do desespero por sua sombria beleza. O homem inconscientemente com põe sua vida segundo as leis da beleza mesmo nos instantes do mais profundo desespero.

O romance não pode, portanto, ser censurado por seu fascínio pelos encontros misteriosos dos acasos (como o encontro de Vronsky, de Ana, da estação e da morte, ou o encontro de Beethoven, de Tomas, de Tereza e do copo de conhaque), mas podemos, com razão, censurar o homem por ser cego a esses acasos na vida quotidiana, pois ele assim priva sua vida da uma dimensão de beleza."

Milan Kundera - A insustentável leveza do ser.

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